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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

CURIOSIDADES SOBRE A FORMAÇÃO GEOLÓGICA DE NOSSA MORRO DO CHAPÉU E REGIÃO

Registro de um deserto proterozóico
SCHOBBENHAUS, C. / CAMPOS, D.A. / QUEIROZ, E.T. / WINGE, M. / BERBERT-BORN, M.
SIGEP 31
Augusto J. Pedreira
1
Antônio José Dourado Rocha
2
A serra do Tombador, que forma parte da escarpa oriental da Chapada Diamantina, é
constituída por rochas sedimentares clásticas da formação homônima, que tem idade superior a um
bilhão de anos. Elas são compostas por conglomerados e arenitos de fácies eólica, fluvial e deltaica,
com predominância da primeira. A Formação Tombador, que foi descrita na primeira década do
século passado, está depositada sobre um embasamento constituído por ortognaisses TTG (tonalitotrondjhemito-
granodiorito), rochas metavulcânicas ácidas, granodioritos e monzonitos porfiroclásticos.
Na serra do Tombador propriamente dita, ao longo da rodovia BR-324, pode ser observada a
discordância (não-conformidade) entre este embasamento e as rochas da Formação Tombador.
Eles consistem em arenitos com granulometria bimodal e estratificação cruzada de grande porte. Na
parte intermediária da formação, os conjuntos de estratificação cruzada, que possuem níveis com
marcas de pingos de chuva, estão truncados por superfícies materializadas por camadas delgadas de
arenito com estratificação plano-paralela. Essas superfícies são interpretadas como produto de subidas
descontínuas do lençol de água subterrânea. As litologias e estruturas sedimentares da Formação
Tombador a caracterizam como um paleo-deserto perfeitamente preservado. Devido a uma elevação
do seu nível, o mar transgrediu sobre a Formação Tombador, depositando sobre ela argilitos e
siltitos da Formação Caboclo, em um ambiente de planície de maré. Os arenitos bimodais da
Formação Tombador são explorados como lajes para o revestimento de pisos.
Tombador Range, Chapada Diamantina, State of
Bahia - Record of a Proterozoic desert
The Tombador range that is part of the Chapada
Diamantina eastern escarpment, is formed by clastic sedimentary
rocks of the Tombador Formation that is older than one billion
years. These rocks are composed by conglomerates and sandstones
of eolian, fluvial and deltaic facies, with predominance of the first
one. The Tombador Formation, described in the first decade of the
present century is deposited on a basement composed by TTG
(tonalite-trondjhemite-granodiorite) orthogneisses, acid meta-volcanic
rocks, granodiorites and porphyroclastic monzonites. In the
Tombador range itself, this unconformity (non-conformity) between
this basement and the sedimentary rocks of the Tombador
Formation may be observed. They consist of sandstones with bimodal
granulometry and large scale cross bedding. In the middle part of
the formation, the cross bedding co-sets that have levels with rain
pits are bounded by surfaces with thin beds of horizontally bedded
sandstones. These surfaces are interpreted as result of discontinuous
elevations of the water table. The lithologies and structures of the
Tombador Formation characterize it as a perfectly preserved
paleo-desert. Owing to an elevation of its level, the sea
transgressed on the Tombador Formation, depositing upon it
argillites and siltstones of the Caboclo Formation in a tidal
flat environment. The bimodal sandstones of the Tombador
Formation are exploited as slabs for floor revestment.
Sítios geológicos e paleontológicos do Brasil
181
182
Serra do Tombador, Chapada Diamantina, BA
A serra do Tombador é uma escarpa com mais
de 75km de extensão, onde aflora a formação
homônima de idade mesoproterozóica, no centro do
Estado da Bahia. Ela forma parte da borda oriental
da região denominada Chapada Diamantina (Figura
1B), possuindo direção geral NNE-SSW. A serra do
Tombador, em seu desenvolvimento norte-sul, toma
diversos nomes locais, como Tombador do Araújo,
serra das Palmeiras e serra da Gameleira,. O seu trecho
principal é limitado pelas rodovias BR-324 e BA-052,
que cruzam as serras do Tombador e da Gameleira.
Para norte e para sul, suas altitudes decrescem,
passando ela a ser recoberta a norte por rochas
sedimentares do Neoproterozóico. Os seus aspectos
estratigráficos, sedimentológicos, tectônicos e
geomorfológicos têm sido objeto de pesquisa desde
o início deste século. Na serra do Tombador, podem
ser estudados com vantagem os processos de
sedimentação ocorridos há mais de um bilhão de anos
antes do presente, e a evolução tectônica e
geomorfológica dessas rochas ao longo do tempo
geológico.
A serra do Tombador cruza diagonalmente o
meridiano 40
paralelos 11
coloca aproximadamente paralela à serra de Jacobina,
da qual é separada por um amplo vale.
As notas de viagem do Sr. J.A . Allen, ornitólogo
da Expedição Thayer, referem-se a sua travessia desde
a localidade de Xique-Xique, à margem do rio São
Francisco, até a cidade da Bahia (Salvador),
aproximadamente no ano de 1868. Nestas notas, ele
comenta sua passagem pelo Tabuleiro de Jacobina,
região mais elevada onde atualmente está situada a
localidade de Laje do Batata (Figura 1A). Deste
tabuleiro se desce em direção a leste, “através de um
desfiladeiro estreito e escabroso chamado o
Tombador”.
Na primeira década deste século, a região foi
percorrida por John Casper Branner, geólogo
americano do Serviço Geológico e Mineralógico do
Brasil, que levantou diversos perfís ao longo das
estradas que atravessam a serra. Ele descreveu o
embasamento que a separa da serra de Jacobina, como
composto por “
morros formados por essas rochas mais velhas são baixos e
arredondados
denominou de Série Tombador, foram descritas como
espessura de cerca de 100 metros...as rochas são brandas e muito
diaclasadas, sendo sua cor rósea, amarelada, avermelhada e cinza....
Ao longo da face das escarpas, como se vê da velha trilha, a uns
2km a norte da trilha atual, as falsas camadas tem alturas,
muitas vezes, de 3 a 4metros
descendo a encosta da cordilheira, passa-se dos arenitos Tombador,
para uma série da camadas esbranquiçadas com sílex, que o
autor chamou de Jacuípe flints....São bem desenvolvidas na parte
da cordilheira localmente conhecida como Serra da Gameleira...
Imediatamente acima dos Jacuípe flints e repousando sobre eles,
de maneira conforme, há uma série de folhelhos aos quais foi dado
o nome de folhelhos Caboclo...”
de Branner são perfeitas: levando-se em conta os
estudos posteriores e a evolução dos conhecimentos,
que determinaram a constituição do embasamento
como ortognaisses TTG (tonalito-trondjhemitogranodiorito),
rochas metavulcânicas ácidas,
granodioritos e monzonitos porfiroclásticos (Sampaio
et al., 1995), e as falsas camadas como estratificações
cruzadas de grande porte, não há o que acrescentar. O
trabalho de Branner é ilustrado por desenhos de sua
autoria, um dos quais é reproduzido na Figura 1D.
Durante a execução do Projeto Bahia (Pedreira
0 45' W e está limitada a norte e sul pelos0 00' e 120 00' (Figura 1A). Esta situação agranitos, gnaisses, xistos e eruptivas antigas...os”. As rochas que sustentam a serra, que elearenitos e quartzitos, sem folhelhos intercalados... com uma...”. Na direção oeste ou noroeste,(Branner, 1910). As descrições
et al
tiveram suas denominações originais restabelecidas. Na
serra do Tombador, onde não afloram os “Jacuipe
flints”, a passagem da Formação Tombador para a
Formação Caboclo, foi determinada como transicional.
Em 1987 foi instalado conjuntamente pelo
Departamento Nacional de Produção Mineral
(DNPM) e pela Companhia de Pesquisa de Recursos
Minerais (CPRM), na cidade de Morro do Chapéu
(Figura 1A), o Centro Integrado de Estudos
Geológicos. Este centro tem como objetivo ministrar
treinamento aos técnicos dessas instituições, e a
execução e apoio a estudos relativos às rochas
sedimentares aflorantes na região. Um desses estudos
foi o levantamento de perfis ao longo das estradas que
cortam a escarpa da serra (serras da Gameleira e das
Palmeiras, riacho Angelim, Gogó da Gata e serra do
Tombador), para a análise faciológica da Formação
Tombador. O painel com a correlação entre as diversas
seções é mostrado na Figura 2. Neste painel é notável
o predomínio das fácies eólidas na Formação
Tombador.
Finalmente, sob o ponto de vista de
estratigrafia de seqüências, a Formação Tombador
., 1975), as formações Tombador e Caboclo,
Sítios gelógicos e paleontológicos do Brasil
183
40 30'
0 40 40' 0
A
BRASIL
Tombador range
Serra do Tombador
Palmeiras range
Serra das Palmeiras
Faz. Angelim
Faz. Macaúbas
Palmeiras
Santa Terezinha
Miguel
Calmon
Jacobina
BA-421
BR-324
Faz. Santa Cruz
Lajes
Morro do Cruzeiro
Cruzeiro hill
Serra
Pé de
BA-426
Cidade
Estrada asfaltada
Paved road
Estrada secundária
Unpaved road
Town
Tombador Escarpment
Escarpa do Tombador
Povoado
Village
Fazenda
Farm
0 2 4 6 8 10km
11 00'
0
40 40'
0
11 10'
0
11 20'
0
11 30'
0
Fig 1B
Fig 1C
Fig 1D
Figura 1-A)
serra do Tombador. O encarte mostra
a situação da região no Brasil;
Mapa de localização daB)
Escarpa do Tombador vista da serra
das Palmeiras, visando sul;
do Cruzeiro visto da serra do
Tombador, visando norte;
do Tombador, vista da Fazenda Santa
Cruz (esboço de J.C. Branner). À
direita, está o morro do Cruzeiro, onde
a Formação Tombador aflora separada
da escarpa principal (Figura 1C).
C) MorroD) Serra
Figure 1-A
range. Inset shows the situation of the
region in Brazil;
seen from Palmeiras range, looking south;
- Location of the TombadorB)Tombador escarpment
C)
range, looking north;
seen from Santa Cruz ranch (sketch by
J.C. Branner). At the right hand side, is
the Cruzeiro hill, where the Tombador
Formation crops out separated from the
main escarpment (Figure 1C).
Cruzeiro hill seen from TombadorD) - Tombador range
A
B
C
D
184
Serra do Tombador, Chapada Diamantina, BA
representa um trato de sistemas de mar baixo. O seu
contato com a Formação Caboclo na serra do
Tombador, é uma superfície transgressiva e essa
formação constitui um conjunto de parasseqüências
pertencente a um trato de sistemas de mar alto.
Desde a cidade de Jacobina, se pode vislumbrar
ao longe (a oeste), a serra do Tombador. Seguindo
pela rodovia BR-324 em direção à localidade de Laje
do Batata, cerca de 18km a oeste de Jacobina, é possível
observar a discordância angular (não-conformidade),
entre o embasamento cristalino e a Formação
Tombador. Na Figura 3A, esta discordância está abaixo
das camadas diaclasadas verticalmente, que continuam
à direita da árvore. O morro mais claro é formado
por rochas intemperizadas do embasamento.
Esta discordância pode ser observada com mais
detalhe cerca de dois quilômetros mais a oeste (Figura
3B). Aí ela é marcada por um nível de conglomerado,
sobreposto por arenitos esbranquiçados. O
conglomerado possui seixos de quartzito verde,
provenientes da serra de Jacobina. Também pode ser
observado que a discordância não é uma superfície
plana: os arenitos da Formação Tombador, preenchem
depressões do embasamento.
Os arenitos sobrepostos à discordância,
possuem granulometria bimodal, e estratificação
cruzada de grande porte. A bimodalidade do arenito,
isto é, o fato de ele ser formado por níveis de grãos
maiores e menores, deve-se à variação da velocidade
do vento, quando os grãos foram transportados: ventos
mais fortes transportavam os grãos maiores; ventos
mais fracos, os grãos menores.
Existem quatro níveis desses arenitos, separados
por superfícies suborizontais. O inferior termina de
encontro à rodovia, enquanto o superior está no canto
direito da Figura 3C. As camadas que separam esses
níveis têm estratificação horizontal e são interpretadas
como superfícies de truncamento, formadas pela
Figura 2
riacho Angelim, Gogó da Gata e serra do Tombador.
- Correlação entre as litofácies da Formação Tombador analisadas nos perfis das serras da Gameleira e das Palmeiras,
Figure 2
Gogó da Gata and Tombador range.
- Correlation among the profiles of Tombador Formation analysed in the profiles of Gameleira and Palmeiras ranges, Angelim creek,
2
Sítios gelógicos e paleontológicos do Brasil
185
Figura 3
arenitos da Formação Tombador e o embasamento cristalino.
Rodovia BR-324, cerca de 18km a oeste de Jacobina;
da discordância entre a Formação Tombador e o embasamento
cristalino (acima do automóvel), 20km oeste da cidade de
Jacobina;
do nível do lençol de água subterrânea, que separam conjuntos
de estratificação cruzada de grande porte;
A) Discordância (não-conformidade) entre osB)DetalheC) Superfícies de truncamento, formadas pela elevaçãoD)
Estratificação cruzada de grande porte em arenitos eólicos da
Formação Tombador. O círculo assinala um martelo como
escala;
afloramento mostrado na foto 6;
interacamados da Formação Caboclo no povoado de Meio,
topo da serra do Tombador;
Formação Tombador, para produção do “Arenito Jacobina”.
E) Pingos de chuva preservados na parte inferior doF) Argilitos e siltitosG)Extração de lajes de arenito na
Figure 3
of the Tombador Formation and the crystaline basement. BR-324
road, about 18km west of Jacobina;
between the Tombador Formation and the crystaline basement (above
the car), 20km west of the town of Jacobina.;
formed by the elevation of the water table, separating large scale cross
bedding cosets;
Tombador Formation. Hammer within the circle as scale;
preserved in the lower part of the outcrop shown in photo 6;
argillites and siltstones of the Caboclo Formation in the hamlet Meio,
top of Tombador range;
Formation for the production of the “Jacobina Sandstone”.
A) Unconformity (non-conformity) between the sandstonesB) Detail of the unconformityC) Bounding surfacesD) Large scale cross bedding in eolian sandstones of theE) Rain pitsF) InterbeddedG) Mining of sandstone slabs in Tombador
A
C
B
E
D
G
F
186
Serra do Tombador, Chapada Diamantina, BA
elevação do nível da água subterrânea (Medeiros
1971). O nível inferior seria um campo de dunas; a
elevação do lençol de água subterrânea fixou as dunas,
de modo que o vento removeu a areia solta situada
acima dele. Sobre esta superfície plana formou-se um
novo campo de dunas; mais uma elevação do lençol
de água subterrânea fixou este campo de dunas.
Quantas vezes este processo se repetiu é impossível de
dizer: na serra do Tombador estão preservados apenas
esses quatro níveis; outros , se houve, foram erodidos.
Na continuação para oeste do nível superior,
podem ser observadas estratificações cruzadas de
grande porte ao nível da rodovia. Na Figura 3D, as
camadas superiores possuem mergulho fraco para leste;
as inferiores, onde está o martelo, mergulham um
pouco mais fortemente para oeste.
Na parte inferior do afloramento mostrado na
foto 6, existem alguns níveis com grande número de
pequenos orifícios circulares (Figura 3E). Essas marcas
são interpretadas como pingos de chuva e, de acordo
com Mc Kee (1979), são feições diagnosticas de
depósitos de dunas.
No topo da serra do Tombador, a estratificação
dos arenitos é plano-paralela (horizontal), devido à
invasão marinha que depositou a Formação Caboclo.
As ondas retrabalharam as areias inconsolidadas,
transformando os estratos cruzados em horizontais. A
Formação Caboclo consiste em uma alternância de
argilitos e siltitos (Figura 3F). Nessas rochas foram
encontradas estruturas contracionais, de modo que elas
são interpretadas como depósitos de planície de maré,
o que corresponde a uma subida do nível do mar, o
qual transgrediu sobre a Formação Tombador.
A serra do Tombador não é apenas uma
sucessão de afloramentos de rocha ao longo de uma
rodovia. Ela representa um antigo deserto de mais de
um bilhão de anos, perfeitamente preservado, onde
podem ser examinados os processos que levaram a
sua formação: o aplainamento parcial do embasamento,
a direção e velocidade dos ventos, as variações do nível
do lençol de água subterrânea, as chuvas ocasionais, e
a sua invasão final pelo mar.
A granulometria bimodal dos arenitos da
Formação Tombador, facilita a extração de lajes para
revestimento. Isto tem sido feito de forma intensiva,
como mostra a Figura 3G, sem que exista uma ação
de acompanhamento e fiscalização por entidades
governamentais.
et al.,



Serra do Tombador, Chapada Diamantina, BA

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