domingo, 8 de julho de 2012

RUI CARLOS VIEIRA BERBERT: UMA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA CONTRA O FASCISMO E A CORRUPÇÃO. OS RESÍDUOS TÓXICOS DESSES ANOS DE CHUMBO, AINDA CONTINUAM VIVOS AQUI ENTRE NÓS. QUE MORRO DO CHAPÉU SE LIVRE DESSES INSETOS SANGUESSUGAS; DE UMA VEZ POR TODAS. Nas próximas eleições, todos teremos a oportunidade de HONRAR A MEMÓRIA DOS NOSSOS HERÓIS SACRIFICADOS. Um bom começo, é votar em candidatos SEM NENHUMA LIGAÇÃO - PASSADO\PRESENTE - COM A DITADURA, OU A SUA SUCURSAL AQUI NA BAHIA; O CARLISMO. O Deputado Fisiológico JOSÉ CARLOS ARAÚJO e, o seu grupo de malfeitores aqui em Morro do Chapéu; são a representação em carne e osso...DESSA ÉPOCA NEGRA DA NOSSA HISTÓRIA.

Cantei para o jovem moreno antes dele ser assassinado

Enviado por André, sab, 07/07/2012 - 17:27

Por Zilda

Sou da da cidade de Natividade e cantei para o jovem moreno, alto, bonito e de olhos tristes na grade da cadeia. Voltava, duas amigas e eu, da missa do galo na passagem de ano de 1972 para 1973.

Cantei: "Feliz 73 eu desejo a você, não esmoreça ergue a cabeça, feliz 73 para você". Ele estava sentado numa rede, cabisbaixo e só levantou os olhos e olhou pra nós. Poucas horas depois ele estava enforcado com a corda que recebeu de outra amiga, para armar a rede. Os pés estavam a poucos centímetros do chão porque ele era alto.

Na parede ao fundo da cela estava escrito, com pedaços de uma caixa de fósforo: REVLUÇÃO(assim mesmo, faltava o O, de revolução).

Muitas fotos dele em tamanho 3X4 e 5X7 foram mostradas.

Durante o dia, depois que chegaram pessoas de avião, não sei de onde, liberaram o corpo para visitação pública, dentro da própria cela. O sulco profundo e negro no pescoço deixou-me muito impressionada. Toquei no rosto gelado dele. Nunca vou me esquecer, à noite, durante meu sono, senti uma espécie de abraço dele. Senti a sensação de um braço gelado ao redor do meu corpo. Acho que foi me agradecer pela visita e pela música que cantei pra ele.

Todas as equipes de busca que foram ao cemitério de Natividade, infelizmente, não en contraram nem vestigio do coropo dele.

Ainda hoje, passados 40 anos ainda me lembro do local onde ele foi sepultado. A pessoa que poderia dar alguma informação sobre um possivel remanejamento do cadáver seria o delegado Pedrão que o prendeu, que também já é falecido. O cabo, à época, hoje meu cunhado Osvaldo, não sabe se houve remoção do corpo. Enterrado lá, foi, se não encontram os ossos atualmente, ninguém conseguiu explicação para tal episódio. Em outro comentário contarei como se deu a prisão dele, já que antes de ser preso estive a poucos metros dele, sem saber de quem se tratava.

O início da história: Era por volta de 16:40hs, eu estava na porta de minha casa, encostada na parede, do lado de fora, esperando a hora do inicio do jogo de vôlei, na única quadra da cidade, na praça, em frente à cadeia(atualmente transformada em museu da cidade). Minha mãe chegou e, de pé, pelo lado de dentro da grade de madeira que cercava uma pequena área, olhou para o lado direito de onde eu estava e disse: "coitado, aquele deve estar morto de fome porque tá comendo aquele pão ruim com a boca tão boa!...".

Eu olhei e vi aquele rapaz muito jovem, moreno, alto, a uns três metros de mim, realmente comendo com muita vontade o tal pão. Não comentei nada. Chegou a hora de ir para o jogo, por volta de 17:00hs, eu passei por ele, mas como não sabia de quem se tratava, não atentei para nada. (Naquela época, até rádio era difícil de se sintonizar em minha cidade.

Ouvíamos programas de , Aroldo de Andrade, Paulo Diniz, Barros de Alencar, na Globo e o inesquecível programa de Hélio Ribeiro na Rádio Bandeirantes. Mas nada do que estava acontecendo no mundo). Pouco tempo depois vi um movimento estranho vindo da "rua de baixo" como chamávamos: o delegado Pedrão e policiais da cidade escoltavam o tal rapaz e um punhado de crianças ao redor. Paramos o jogo para saber do que se tratava. Osvaldo, um dos policiais, passou em frente à minha casa,e viu o tal jovem e o reconheceu como guerrilheiro, segundo palavras dele, pelas botas que usava. Era uma das características que os militares passavam para o interior para identificar os guerrilheiros do Araguaia perdidos nas redondezas era o uso das tais botas. Chamou o delegado e o prenderam. Naquela época, na cidade de Pindorama também prenderam guerrilheiro - não sei se um ou mais.

Alguns dados que minha memória guardou: o rapaz estava com 24 anos, estudante de Direito, paulista.

Algumas pessoas foram chamadas para depor: a amiga que deu a rede e as cordas para ele se acomodar; uma moça-cujo pai era da cidade, professor em Goiãnia, mas ela já nascera na capital - que durante o enterro chorou. Isso chamou a atenção dos militares que estavam por lá.

Na mesma madrugada em que o rapaz foi encontrado enforcado na cadeia, faleceu um idoso da cidade. O cortejo do rapaz era o mesmo do idoso da cidade. As pessoas acompanhavam os dois féretros. A deferença era que um foi levado antes para a Igreja Matriz e o rapaz por ser "suicida" não teve o mesmo tratamento. No mais, a população, ou melhor, nós que não sabiamos do que se tratava acompanhamos os dois até o cemitério e o vimos ser enterrado.

COMENTÁRIOS:
"dom, 08/07/2012 - 01:12

Fr@ncisco

Feito o resgate das peças de um mosaico desfeito, a história vai preenchendo suas lacunas, pelas veias reabertas da democracia, novamente pulsantes, trazendo de volta à vida quem a teve curta, mas não pequena.

Emociona quando Zilda revela em branco e preto, no retrato pintado na memória, também o interior desse imenso Brasil nesse tempo, revelando que moços e moças em Natividade, no então longínquo Pará, estavam na mesma (des)sintonia que os moços e moças do interior do estado de São Paulo e certamente de todo o Brasil.

O rádio era o grande canal de informação e o programa de Hélio Ribeiro, na rádio Bandeirantes, oxigênio essencial, enquanto não chegava a hora de ir

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Cena 1: o começo ou sepultamento inusitado

Segunda-feira, 18 de maio de 1992. Em Jales, a 600 quilômetros de São Paulo, um caixão fechado é velado na Câmara Municipal. Foi decretado feriado, a cidade inteira está parada. A Câmara está lotada. Presentes crianças e adolescentes, gente de todas as idades. É um dia de sol muito quente, daqueles que nem ferro de marcar. Após o velório, um cortejo segue a pé até o cemitério.

Depois de anos de busca do filho desaparecido, Ruy Thales consegue enterrá-lo. O caixão é finalmente depositado no jazigo da família Berbert. Dentro dele, porém, não havia um corpo. Nem restos mortais. Apenas um terno completo e os sapatos de Ruy Carlos Vieira Berbert, desaparecido desde 1972. Objetos que haviam permanecido até então intocados em seu quarto, para "caso ele voltasse".

Antes do início das cerimônias, Ruy Thales, o pai, chamou Amélia Teles em casa para tomar um café. Ela estava em Jales representando a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. "Ele havia me chamado para o enterro, mas eu sabia que os restos mortais não haviam sido encontrados. Aceitei o convite e não perguntei nada. Ele também não me disse nada".

Depois do café, o conteúdo do caixão foi revelado. Naquele dia, Amélia foi cúmplice de Ruy Thales. Ninguém, além dos dois, sabia que o ataúde estava praticamente vazio. O pai já estava bastante idoso, e, prevendo que morreria logo, quis enterrar o filho. Mesmo sem ter um corpo. No fim do dia, depois do ato na Câmara e do enterro, deu um jantar para 80 pessoas. "Era uma mesa enorme, parecia um banquete", conta Amélia. O pai de Berbert morreu pouco tempo depois. Mas conseguiu enterrar seu filho.

Cena 2: Ruy Carlos Vieira Berbert, presente!

O ritual foi a forma encontrada pela família Berbert para acabar com a espera. A maneira de encerrar o luto que já durava 20 anos. Estavam se libertando de um fantasma que, até hoje, assombra a vida de famílias inteiras: filhos, pais, mães e irmãos. Hoje, no Brasil, ainda são 144 os desaparecidos políticos.

"Não pode haver aceitação da ideia de que ainda existem mais de 140 brasileiros que muitos vivos sabem onde estão seus corpos ou como seus corpos deixaram de existir", afirma Paulo Vannuchi, à frente da Secretaria Especial de Direitos Humanos desde o final de 2005.

O caso de Ruy Carlos Vieira Berbert é emblemático. Nascido em Regente Feijó, no interior paulista, em 1947, veio para São Paulo tentar o vestibular da USP. Passou em letras, começou o curso e se tornou militante no movimento estudantil. Mais tarde, passou à luta armada. Em 1969, viajou, pela ALN – Ação Libertadora Nacional, organização de maior expressão no cenário da guerrilha urbana, nascida como dissidência do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e que teve Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira como dirigentes –, para Cuba, de onde retornou como militante do Molipo – Movimento de Libertação Popular, surgido a partir de um racha da própria ALN.

A maioria dos que voltavam do treinamento na ilha socialista já chegava ao Brasil "queimada" e procuradíssima pela repressão. Quando os serviços de informação da ditadura souberam que os integrantes do Molipo estavam se espalhando de forma clandestina para dentro do país, o governo baixou uma ordem exigindo a prisão de todo e qualquer estranho recém-chegado às cidades do interior.

O turista relâmpago

Na virada de 1971 para 1972, Berbert instalou-se em Natividade (na época, em Goiás, hoje, no Tocantins), em uma pequena pensão. No dia seguinte, foi preso enquanto conversava tranquilamente na calçada com a filha do dono do estabelecimento.


A delegacia da cidade era bem antiga. Suas celas possuíam amplas janelas gradeadas que davam para a praça principal. Da janela, o preso conversava com as pessoas que por ali passavam. Em algumas horas, o militante tornou-se celebridade, quase uma atração turística. Ficou conhecido.


Dois ou três dias após sua prisão, baixou em Natividade "o pessoal de São Paulo", como eram chamados os agentes do DOI-Codi. Nesse mesmo dia, Berbert apareceu enforcado em sua cela. A versão oficial: suicídio.


No dia seguinte, um grande proprietário de terras da região, não muito querido pela população local, também morreu. Os dois corpos partiram em cortejo rumo ao cemitério, seguidos por boa parte dos habitantes daquela cidade. Os agentes da repressão acreditavam que era por conta da morte do latifundiário, mas as pessoas estavam seguindo Berbert, o turista relâmpago, que, embora tivesse ficado tão pouco tempo na cidade, angariou simpatia e admiração, e que, do mesmo jeito que chegou, foi-se embora num piscar de olhos. Enterraram o latifundiário na ala "dos ricos" do cemitério, e o militante, numa vala comum, junto aos indigentes.


A família Berbert passou a ter informações sobre o filho somente através de notícias de jornal. Em 1979, um general ligado ao aparelho repressivo admitiu sua morte em entrevista concedida à Folha de S. Paulo. Na ocasião, dona Ottília, mãe de Ruy Carlos, disse ao grupo Tortura Nunca Mais que gostaria de mostrar a luta constante pela qual passaram, na busca incerta da solução de um passado certo: "Apesar dos fatos comprovarem a quase certeza de sua morte, nós vivemos mais de uma década com a esperança e o sonho de vê-lo novamente".


Corpo que não era corpo

Apenas em 1991 começaram a obter dados mais concretos. Um atestado de óbito com o nome de João Silvino Lopes foi entregue à Comissão 261/90 da Prefeitura de São Paulo, criada no mandato da prefeita Luiza Erundina, para acompanhar a identificação das 1.049 ossadas encontradas na vala clandestina do cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus. Segundo a versão oficial, Lopes havia se suicidado em 2 de janeiro de 1972, em Natividade. Embora pudesse ser um militante político, seu nome não constava na lista de desaparecidos.


Só um ano mais tarde, em 1992, quando os familiares dos mortos e desaparecidos tiveram acesso aos arquivos do Dops, foi encontrada uma relação elaborada a pedido de Romeu Tuma, diretor da unidade paulista do órgão entre 1977 e 1982. Nela, estava o nome de Ruy Carlos Vieira Berbert com as seguintes observações: preso em Natividade, suicidou-se na Delegacia de Polícia, em 2 de janeiro de 1972. Concluiu-se que João Silvino Lopes era o nome com que fora enterrado Ruy Carlos Vieira Berbert.


Tendo-se como base esse mesmo documento, foi possível saber que seu corpo estava no cemitério de Natividade, mas não em qual local exatamente. Para exumá-lo e fazer a posterior identificação, seria preciso escavar o cemitério inteiro. Membros da Comissão 261/90 explicaram a situação à família Berbert, que, resignada, se contentou com um atestado de óbito, concordando em não fazer a exumação praticamente impossível. O corpo permaneceu no local, mas um enterro simbólico foi realizado na cidade onde seus pais moravam.


Naquele dia, quem passou pela Câmara Municipal de Jales prestou homenagens frente ao caixão vazio de corpo, mas repleto de símbolos. Velaram um corpo que não era corpo, que não sabiam que não era corpo, mas que reverenciavam e o fariam ainda que o soubessem. No cemitério, colocaram a bandeira a meio-pau e cantaram o hino nacional. Tudo isso para o homem que não estava lá.

Fonte: http://www.torturanuncamais-rj.org.br/MDDetalhes.asp?CodMortosDesaparecidos=327





Fotos comprovam que morte de guerrilheiro foi omitida por 20 anos
BRASÍLIA - Imagens até agora inéditas do corpo do guerrilheiro Ruy Carlos Vieira Berbert, desaparecido em janeiro...

RUI CARLOS VIEIRA BERBERT: UM HERÓI DO POVO BRASILEIRO. QUE A SUA, E MILHARES DE OUTRAS HISTÓRIAS PARECIDAS; SEJAM SEMPRE HONRADAS POR TODOS OS CIDADÃOS\ÃS QUE AMAM A DEMOCRACIA.

Fotos comprovam que morte de guerrilheiro foi omitida por 20 anos
"Corpo de Ruy Berbert em cadeia de Natividade, no interior de Tocantins"
BRASÍLIA - Imagens até agora inéditas do corpo do guerrilheiro Ruy Carlos Vieira Berbert, desaparecido em janeiro de 1972, aos 24 anos, revelam que, por duas décadas, três governos militares e dois civis sabiam de sua morte numa cadeia de Natividade, hoje município do interior do Tocantins, e nunca informaram o fato a seus parentes.
Por meio da Lei de Acesso à Informação, que liberou documentos antes mantidos em sigilo, o Estado localizou seis fotografias de Berbert morto. Uma pasta de imagens do Arquivo Nacional mostra que o Centro de Informações do Exército, principal órgão de repressão à luta armada, identificava o guerrilheiro oficialmente e de forma correta já em janeiro de 1972.
Apesar da insistente procura dos parentes, os responsáveis pelos serviços de informações dos governos dos generais Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo, e os dos presidentes civis José Sarney e Fernando Collor não informaram a existência das fotos nem confirmaram sua morte.
A família conseguiu a primeira informação oficial só em 1992, ao ter acesso a dados disponíveis a partir daquele ano pelo antigo Dops de São Paulo. Os arquivos citavam a prisão de Berbert e a possibilidade de o guerrilheiro ter se suicidado na cadeia. A suspeita, porém, é que ele tenha sido assassinado pelo regime.
À época, os parentes tiveram de confrontar a informação do Dops com o registro da morte de um certo "João Silvino Lopes" em Natividade, dado divulgado em 1979 por um general da reserva.
Desaparecidos. Até hoje não se sabe onde estão os restos mortais de Berbert. Ele está na lista oficial que computa 475 mortos ou desaparecidos no período de governos militares no País (1964-1985).
As fotos de Berbert são as primeiras divulgadas, após a redemocratização, de um guerrilheiro morto nas dependências de um órgão do Estado.
De Jales, no interior paulista, Regina, única irmã de Berbert, recebeu com serenidade a notícia da existência das imagens no Arquivo Nacional. "Meu pai, também chamado Ruy, morto há 11 anos, sempre fez questão de divulgar com orgulho a história dele."
O Estado enviou as fotografias para o marido de Regina, Moacir Pereira. A família decidiu que não mostraria as imagens para a mãe do guerrilheiro, Ottília, com 93 anos.
'Ironia da vida'. Berbert integrava o Movimento de Libertação Popular (Molipo), que tinha 28 integrantes - a maioria dos quais foi dizimada nos dias subsequentes à sua morte.
Ele nasceu em Regente Feijó, interior paulista, em 1947. Filho do funcionário público estadual Ruy Thales Jaccoud Berbert e da professora de ensino básico Ottília Vieira, logo cedo demonstrou interesse pela escrita. Numa redação, aos 8 anos, mostrou o desejo de se tornar militar. "Olha a ironia da vida", diz Regina.
Berbert saiu de casa aos 18 anos para cursar Letras na USP. Estava na lista de estudantes presos no Congresso da UNE de Ibiúna, em 1968. Depois da prisão, a irmã e a mãe o reencontraram na Praça da República, em São Paulo. Foi o último encontro. No ano seguinte, ele passou a ser procurado sob suspeita de participação no desvio de um avião da Varig para Cuba. Na ilha caribenha, recebeu treinamento de guerrilha. Ao se integrar ao Molipo, também chamado Grupo Primavera ou Grupo da Ilha - uma dissidência da Ação Libertadora Nacional (ALN) - ele retornou ao Brasil. Andou pelo Maranhão e chegou a Natividade, fundada no século 18 e hoje com 9 mil habitantes.
A curta passagem de Berbert por Natividade ainda é lembrada por parte dos moradores da cidade. Relatos indicam que a prisão foi efetuada por uma equipe da delegacia local. Agentes externos do regime militar teriam chegado depois. Berbet usava botina e tinha características físicas bem diferentes das da população local.
Como a cidade ficou fora da rota da Rodovia Belém-Brasília, a passagem de viajantes que seguiam para o Maranhão ou Pará tornou-se mais rara.
Em Natividade, Berbert foi preso e levado para a cadeia pública, uma construção do período do Brasil Colônia, de frente para a praça central, de alpendre elevado e paredes de quase 1 metro de largura. Uma abertura na cela permitia que ele mantivesse contato com os moradores do município. Ele chegou a ganhar de uma moça uma rede para dormir.
Lençol. Numa madrugada de janeiro de 1972, moradores viram Berbert pendurado com lençol amarrado a troncos de madeira que sustentavam o teto da cadeia. Testemunhas disseram à família que viram agentes policiais de fora na cidade. Versões mais recentes de fontes militares indicam que os agentes chegaram a Natividade só após a morte do guerrilheiro. Eles sustentaram a versão do suicídio de "João Silvino Lopes", maneira como Berbert foi identificado a autoridades locais - seu nome correto, no entanto, foi registrado pelos agentes do governo que fizeram as fotografias agora reveladas pelo Estado.
O advogado da família Berbert, Idibal Pivetta, também não sabia da existência das imagens do guerrilheiro morto. "As únicas fotografias que conseguimos dele em Natividade foram imagens feitas pelas moças da cidade", afirma Pivetta. "Ruy era um rapaz muito boa pinta, as moças tentavam conversar com ele por meio da abertura na cela da cadeia", conta o advogado. "Está provado que ele foi morto numa dependência do Estado. O Estado, portanto, é culpado."

Imagens 'perdidas' de guerrilheira do Araguaia são achadas em arquivo
Meu perfil
José Caetano Silva é sociólogo. Formou-se em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Presidente (antiga Fafi), instituto isolado da USP, em 1973. Começou a carreira como professor primário em 1969, em Itapecerica da Serra. Lecionou no Esquema Vestibulares, depois Objetivo, de Presidente Prudente, de 1972 a 1989. Lecionou na FCT-Unesp - entre 1976 e 1978. Lecionou na Instituição Toledo de Ensino - 1976 - 1985-1988 - 1995-1999. Lecionou no IMESPP - 1985-1988 e voltou para Unesp em 1985, onde lecionou até a aposentadoria em junho de 2008. Deu aulas ainda no Esquema Objetivo de Adamantina - 1974-1988. Trabalhou como professor do Objetivo de Araçatuba - 1977-1985. Foi vereador do Partido dos Trablhadores na Câmara Municipal de Presidente Prudente durante três legislaturas (1989-1992 - 1997-2000 - 2005-2008). Atualmente é o Diretor Presidente da Fundação Educacional Vicente Furlaneto, responsável pela manutenção do Centro de Educação Profissional "Antonio Zacharias" - em Presidente Prudente.
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Sinal fechado – Chico Buarque Holanda*

– Olá! Como vai?
– Eu vou indo. E você, tudo bem?
– Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro... E
você?
– Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranqüilo...
Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é, quanto tempo!
– Me perdoe a pressa - é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
– Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!
– Pra semana, prometo, talvez nos vejamos...Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é...quanto tempo!
– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das
ruas...
– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
– Por favor, telefone - Eu preciso beber alguma coisa,
rapidamente...
– Pra semana...
– O sinal...
– Eu procuro você...
– Vai abrir, vai abrir...
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço...
– Por favor, não esqueça, não esqueça...
– Adeus! Não esqueço..
– Adeus!
– Adeus!
* essa música fez sucesso na voz de Paulinho da Viola e dura exatamente o tempo de um sinal fechado nas ruas das grandes cidades brasileiras (composta em 1975).
O corpo de João Carlos Haas e outro guerrilheiro, mortos no Araguaia – setembro/1972 - foto do site Íntegras
A “crítica das armas” ou “não era mole, companheiro”.

A maior parte das pessoas que pegaram em armas e enfrentaram a Ditadura Militar no Brasil era proveniente da classe média e estudava ou estudou nas melhores universidades brasileiras. Abandonaram suas carreiras, o conforto dos lares, as festas, as colunas sociais, os amigos e o bem estar material para tentar colocar em prática os seus ideais de uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais humana, enfim.
Ingressaram num cotidiano onde as suas vidas pendiam por um fio e onde a tensão grassava continuamente em meio ao ruído de botas e sirenes dos veículos das forças repressivas. Inseriram-se num espaço onde a coragem e o medo se mesclavam numa simbiose extremamente contraditória, mas absolutamente normal em meio às circunstâncias. Por ironia, o medo impulsionava a coragem, transformando suas ações em manifestações do mais alto grau de determinação.
O padre guerrilheiro Alípio de Freitas, nascido em Portugal, em seu livro “Resistir é preciso”, conta que foi preso e sabendo que ia ser torturado, deu um violento chute nos órgãos genitais do capitão do Exército. Para ele a aquela imagem do militar abaixado, segurando os testículos e urrando de dor, serviu para amenizar os impactos da tortura que sofreu. Em meio ao “pau de arara”, aos choques elétricos, aos “afogamentos”, aos “telefones”, sua dor se reduzia, pensando na dor que produzira no torturador.
Alípio de Freitas: padre em Portugal, guerrilheiro no Brasil.
.Comenta-se que o padre Nando, personagem principal do livro “Quarup”, de Antonio Callado, tenha sido inspirado em Alípio de Freitas, que veio para o Brasil com menos de 30 anos de idade, foi professor da Faculdade Filosofia em São Luís, no Maranhão e participou do famoso movimento de alfabetização no Nordeste “de pé no chão também se aprende a ler”, organizado pelas Ligas Camponesas. Após o golpe militar, ingressou na luta armada. Foi preso em 1970 e anistiado em 1979.
Alípio de Freitas trocou o manejo das hóstias pelo manejo da metralhadora, o conforto da igrejinha de Bragança pelo árido sertão nordestino, as sandálias pelas alpercatas.
A trajetória épica de Ruy Carlos Vieira Berbert
Foto tirada quando de sua prisão pela participação no Congresso da UNE (68)

O Ruy Berbert, como era conhecido em nossa querida Regente Feijó, jogava futebol no time infanto-juvenil do Vasco da Gama. Para nós, jogadores pobres do Beija-Flor, o Vasco da Gama era o time dos “pós de arroz”, porque só possuía no elenco jovens da classe média regentense. Não poderia imaginar, naquele momento, que um dia o Ruy se constituiria ao mesmo tempo num mártir e num ídolo de nossa geração.
O texto a seguir, extraído do site do Grupo Tortura Nunca Mais, conta parte da trajetória do Ruy.
Mortos e Desaparecidos: Ruy Carlos Vieira Berbert – Militante do Movimento de Libertação Popular (MOLIPO)
Estudante universitário
Nasceu em Regente Feijó (São Paulo), no dia 16 de dezembro de 1947, filho de Ruy Thales Jaccoud Berbert e Ottilia Vieira Berbert.
Desaparecido em 1972, aos 25 anos de idade, assim permanecendo até 30 de junho de 1992, quando a Justiça reconheceu sua morte em 2 de janeiro de 1972, na cidade de Natividade (Tocantins)
Poucas informações se tinha a respeito de Rui Carlos e de seu desaparecimento. Sua morte foi admitida por um general estreitamente ligado ao aparelho repressivo em entrevista fornecida ao jornal “Folha de São Paulo”, em 28 de janeiro de 1979.
Foi indiciado no inquérito 15/68, referente ao XXX Congresso da UNE, em Ibiúna/SP. Em 27 de julho/72 foi condenado peã 2ª. Auditoria da Marinha à pena de 21 anos reclusão.
Em meados de junho de 1991 foi entregue por Hamilton Pereira, membro da Comissão Pastoral da Terra, à Comissão 261/90 da Prefeitura de São Paulo, criada no governo da prefeita Luíza Erundina, para acompanhar a identificação das 1.049 ossadas encontradas na vala clandestina de Perus, um atestado de óbito em nome de João Silvino Lopes, causa mortis: suicídio, datado de 02 de janeiro de 1972, em Natividade (na época, Estado de Goiás). Havia probabilidade de ser um militante desaparecido político.
Na ocasião, não se tinha a possibilidade de identificar este provável militante. Este nome não constava na lista dos desaparecidos políticos. Caso fosse um nome falso, era necessário mais informações para identificá-lo.
O codinome mais conhecido de Ruy em meio à militância estudantil era Joaquim.
Em janeiro de 1992, quando se teve acesso aos arquivos do DOPS/SP, encontrou-se uma relação elaborada a pedido do Dr. Romeu Tuma intitulada “Retorno de Exilados”. Na relação das pessoas, estava o nome de Ruy Carlos Vieira Berbert, com as seguintes observações: preso em Natividade, suicidou-se na Delegacia de Polícia, em 02 de janeiro de 1972. Concluiu-se que João Silvino Lopes era o nome falso de Ruy Carlos Vieira Berbert e buscaram-se meios para prosseguir nessas investigações. Solicitou-se à Comissão de Representação da Câmara Federal ajuda para investigas, naquela cidade, a verdadeira identidade do morto.
Organizou-se uma caravana integrada pelas seguintes pessoas: o Presidente da Comissão de Representação Externa do Congresso, deputado federal Nilmário Miranda (PT-MG), deputado federal Roberto Valadão (PMDB-ES), Idibal Piveta, advogado da família de Ruy Carlos Vieira Berbert e representante da OAB-SP, Hamilton Pereira, da Comissão Pastoral da Terra, de Goiás e Suzana Keninger Lisboa, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.
Os integrantes da Caravana tomaram os depoimentos de populares que presenciaram os fatos da época. Foram entrevistados alguns moradores, funcionários públicos e membros da PM, que confirmaram que Ruy Carlos e João Silvino Lopes eram realmente a mesma pessoa.
Feito levantamento das sepulturas do Cemitério e localizado o possível local do sepultamento, foi encaminhado à Justiça pedido para a reconstituição de identidade e posterior exumação e traslado dos restos mortais. Contatos com o Prefeito e o Governador de Estado foram feitos para providenciar as medidas necessárias para guarda da sepultura localizada.
Enterrado em Natividade com o codinome João Silvino Lopes, em 2 de janeiro de 72
No dia 30 de junho de 1992, a Juíza de Direito da Comarca de Natividade, Dra. Sarita Von Roeder Michels, concluiu os termos de retificação da Certidão de Óbito, requerida pelo Sr. Ruy Jaccoud Berbert, pai de Ruy Carlos. O parecer da juíza diz o seguinte: “A documentação acostada aos autos não deixa qualquer dúvidas de que Ruy Carlos seja a mesma pessoa que morreu na cadeia pública desta cidade de Natividade, foi sepultado no Cemitério local e cujo óbito lavou-se em nome de João Silvino Lopes”.
Em seguida encaminhou o cancelamento do registro de óbito em nome de João Silvino Lopes e foi lavrado novo assento que registra o óbito de Ruy Carlos Vieira Berbert, falecido em 02 de janeiro de 1972, às 3;00 horas na cadeia pública da Praça Senador Leopoldo de Bulhões.
Seu corpo, entretanto, não pode ser localizado, apesar das tentativas realizadas pela Equipe do Departamento de Medicina Legal da UNICAMP. No dia 19 de maio de 1992, em Jales, São Paulo, uma urna funerária vazia foi depositada no jazigo da família Berbert, simbolizando o enterro de Ruy Carlos, vinte anos após a sua morte.
Foto recente de Natividade (Tocantins) onde o Rui morreu...

De sua mãe, D. Ottília:
“Rui Carlos tinha uma única irmã, Regina Maria Berbert Pereira. Ele passou a adolescência em sua terra natal (Regente Feijó). Sempre foi uma pessoa tranqüila e bondosa, especialmente para a sua família”.
Ao concluir o Curso Científico, deixou sua cidade seguindo para São Paulo com o intuito de se preparar o vestibular e conseguiu, para tal, bolsa de estudos integral. E venceu essa etapa na vida estudantil conseguindo ser aprovado na PUC e USP, com distinção. Com os resultados vestibulares, optou pelo seu ingresso na USP, no curso de Letras.
Porém, após um ano, trancou a matrícula e começou a ministrar aulas em cursinhos particulares, entre outros, no Capi-Vestibulares, na Avenida São João e também num cursinho da Liberdade. Nesse ínterim, iniciou seu envolvimento nas atividades políticas estudantis, quando, em outubro de 1968, foi preso em decorrência de sua participação no Congresso da UNE, em Ibiúna.
Foto famosa da prisão dos estudantes no XXX Congresso da UNE, em Ibiúna (setembro/68). Ruy Carlos estava entre eles.
Após a sua prisão retornou à terra natal, permanecendo uns quinze dias e voltando logo em seguida para o Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, onde morava, continuando a sua participação nos movimentos estudantis, até que, por motivos óbvios, se retirou do país.
Foi visto pela última vez em outubro de 1968 em sua cidade natal, Regente Feijó.
Comentário pessoa número 1: "foi nesse retorno do Rui a Regente Feijó, que o vi pela última vez. O Rui estava presente no comício do Valdemar Guadagnin (MDB), na Vila Nova, bairro periférico da cidade. Trajava uma camisa vermelha e, de braços cruzados, ouvia atentamente a fala do advogado Agenor Duarte que, corajosamente, desancava a ditadura e as oligarquias municipais".
Comentário pessoal número 2:" Em 13 de dezembro de 1969, eu estava voltando de São Paulo para Regente Feijó quando vi, na banca da Estação Júlio Prestes (Estrada de Ferro Sorocabana) as fotos dos seqüestradores de um Boeing, que foi levado para Cuba, há mais de um mês atrás (4/11/1969). O avião fazia o trajeto Buenos Aires-Santiago. Uma das primeiras fotos na página do jornal “O Estado de São Paulo”. Uma das fotos era do Rui Berbert".
Continuando a fala de D.Ottília (mãe do Rui e ex-professora primária em Regente Feijó):
Logo após sua saída do país, no final de 1969, em dezembro, recebemos uma carta da Europa na qual reconhecemos a letra dele. Porém, percebia-se claramente que, por motivos de força maior, dizia estar como turista pelo Velho Mundo, que estava bem, mas que seria muito difícil nos escrever sempre. Meses após recebemos um bilhetinho escrito às pressas e falando apenas que estava bem e que pensássemos sempre nele com carinho.
Comentário pessoal número 3: "Percebe-se na fala de D.Ottília que em nenhum momento ela cita o seqüestro. Isso tem uma explicação psicológica. Quando a notícia se espalhou por Regente Feijó a família do Rui passou a ser vista como a “família do terrorista”. A Ditadura havia conseguido transformar em “assassinos de pais de família” todos aqueles que ousavam enfrentá-la através da luta armada. . Isso gerou um bloqueio, uma espécie de ocultamento do heróico feito do filho, visando evitar constrangimentos.
O clima ficou tão carregado que a família deixou Regente Feijó, foi para Presidente Prudente e depois para Jales".
Continua D.Ottilia:
Partir daí saíram algumas notícias na imprensa sobre ele, tais como:
25/11/78: Folha de São Paulo - O Congresso Nacional pela Anistia divulgou uma lista de 37 nomes de pessoas mortas e desaparecidas a partir de 1964 e nela constava o nome de Ruy Carlos como desaparecido em Dezembro de 69.
28/01/79: Folha de São Paulo: 13 nomes de desaparecidos, cujas fichas estavam no “necrotério” de um órgão de segurança em dezembro de 1973 e que são dados como desaparecidos pelas famílias e organizações de defesa dos direitos humanos; consta que desaparecimento de Ruy Carlos está ainda em investigação.
Ruy foi professor de Literatura no Capi- Vestibulares, na capital paulista.

03/08/79: “Correio da Manhã”- Rio – Noticia uma lista de 14 nomes, com este título: “Estes desaparecidos foram mortos”. Entre esses nomes estava o de Rui Carlos.
18/8/79: “Estado de São Paulo” – O Dr. Idibal Piveta envia carta ao Ministro da Justiça, Petrônio Portela, solicitando informações de Rui Carlos e outros.
22/09/79: “Folha de São Paulo”. O Juiz Antonio Carlos de Seixas Teles, anistiou várias pessoas condenadas por atividades estudantis contra a segurança nacional e entre elas estava o nome de Rui Carlos.
01/08/1991: “Diário Popular” – noticia trabalho feito em Curitiba pela Comissão Especial de Investigação, onde foram encontradas fichas de 17 desaparecidos em um arquivo de aço, com a identificação “falecidos”, constando o nome de Rui Carlos.
Após este histórico sobre a vida de Rui Carlos, gostaria de mostrar a luta constante pela qual passamos na busca incerta da solução de um passado certo.
Apesar dos fatos comprovarem a quase certeza de sua morte, nós vivemos mais de uma década com a esperança e o sonho de vê-lo novamente.
A partir do momento em que tivemos a certeza de que ele não voltaria mais, passamos a viver momentos ainda mais angustiantes e mais uma década se passou.
Hoje o nosso maior sonho é conseguir dar para Rui Carlos um lugar digno de grande herói que foi. É esta a nossa última e grande esperança.
Se assim o conseguirmos, não olvidaremos jamais a grande luta dos amigos e, porque não dizer, irmãos, que lutam e lutaram para a elucidação de uma época tão negra para nós.
Esperamos que a história nunca se esqueça de mencionar esses jovens heróis, muitas vezes anônimos para a maioria da população alienada a respeito dos acontecimentos passados.
Todavia, para nós, Ruy Carlos Vieira Berbert não é um herói anônimo pois, além de dar a sua contribuição para as grandes transformações sócio-políticas brasileiras, nos é lembrado como um filho digno das mais belas recordações, como um ser humano maravilhoso que foi: jovem, belo, inteligente, honesto e carinhoso que soube lutar pelos seus ideais”.
Homenagem à Rui Berbert
Em 1995, a Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo aprovou projeto de lei do deputado estadual Mauro Bragato que dava o nome de Ruy Carlos Vieira Berbert a uma escola do bairro Brasil Novo, em Presidente Prudente.
A entronização do nome seria no dia 5 de dezembro daquele ano. Um semana antes, fui procurado pela professora de História Valdelis de Campos, do Colégio Arruda Mello, para escrever um artigo sobre o Rui na coluna “Refrescando a Memória”, do Jornal “O Imparcial” de Presidente Prudente. O artigo foi publicado exatamente no dia 5 de dezembro, data da entronização. Levei o exemplar do jornal para os pais do Rui, que vieram de Jales para a cerimônia.
Depois da colocação da foto do Rui na parede da escola, as crianças cantaram músicas alusivas ao ato. No momento das saudações póstumas ao homenageado, Ruy Jaccoud, pai do Ruy Carlos, iniciou falando sobre a trajetória do filho. Quando disse “meu filho foi um herói”, não agüentou prosseguir, em meio às lágrimas. O término do seu discurso foi efetuado pelo genro. O senhor Ruy faleceu alguns anos atrás.
Escola “Ruy Carlos Vieira Berbert”, no Bairro Brasil Novo
No início de 2008 eu era vereador e fui procurado na Câmara por uma estudante de jornalismo da Universidade do Tocantins, Poliane Ribeiro, que estava fazendo um trabalho sobre o Ruy Carlos. Ela já havia entrevistado amigos do Ruy em Regente Feijó e Presidente Prudente, inclusive aqueles que moraram com ele no CRUSP.
No meu depoimento comentei sobre a conjuntura política, cultural e social do Brasil e do Mundo nos anos sessenta. Falei do impacto desse momento mágico sobre a juventude da época. A Poliane me perguntou se eu poderia gravar um vídeo enfocando esse tema. Respondi que sim e no dia seguinte ela veio à Câmara Municipal com um fotógrafo do Cine Arte de Regente Feijó, o Ricardo, filho do Paulo (já falecido), contemporâneo do Ruiy Carlos. Tempos depois a Poliane me disse que apresentou o vídeo com os depoimentos de todos para a família do Rui, em Jales, e comentou que gostaram muito.
Quando esteve em Prudente a Poliane me trouxe algumas informações a respeito da rápida e trágica passagem do Ruy por Natividade (antes Goiás, hoje Tocantins), onde morreu. Disse ela que o Rui ficou preso numa cadeia no centro da cidade e as pessoas podiam vê-lo na cela. Como era muito bonito as moças o chamavam de “o desejado”. Para outros era “o terrorista”. Vejam bem: em apenas um dia numa cidade, Ruy Berbert gerou polêmicas sem dizer uma única palavra.
Tempos depois a Poliane me enviou a foto do Ruy, tirada quando de sua prisão por haver participado do Congresso da UNE, em Ibiúna, e uma cópia do documento emitido pela polícia que efetuou a prisão do Rui, em Natividade, no dia 31 de dezembro de 1971.
No documento constava que um indivíduo suspeito, de nome João Silvino Lopes, de estatura alta, portando um revólver 38 carregado e com uma caixa de balas na mochila, fora preso no dia 31 de janeiro de 1971. Constava ainda que foi levado para a cadeia, que ficava no centro da cidade, e preso na cela, onde ficou deitado numa rede, numa posição tranqüila.
Consta que na madrugada do dia 2 de janeiro, “João Silvino Lopes”, foi encontrado morto. “Havia se enforcado”. Segundo o documento, ao seu lado havia uma caixa de fósforos onde estava escrita a palavra “revolução”.
Comentário pessoal número 4: "naqueles “anos de chumbo” do Regime Militar, a versões “oficiais” para a morte de centenas de militantes dos agrupamentos de esquerda que a enfrentavam eram: atropelamento na tentativa de fuga, troca de tiros com a polícia ou Exército e suicídio".
Será que um dia saberemos a verdade sobre a morte do Ruy?


Um comentário:

RODRIGO BERBERT PEREIRA disse...

Estória x História

Boa noite, sou sobrinho de Rui Carlos Vieira Berbert, moro atualmente na cidade de Araçatuba, interior do Estado de São Paulo, recentemente eclodiu em minha família os sentimentos idealistas que existiam, "aos montes", em meu tio.
Infelizmente não tenho a gana democrática que ele possuía, mas confesso que necessito participar, mesmo de forma singela para o descobrimento da verdade, além de lutar por aquilo que chamamos de democracia.
A história dele não é tão conhecida como deveria; ele e nossa população mereciam a divulgação dessa parcela histórica.
Somos parte de uma minoria que conhece, realmente, o que ocorreu nos porões da ditadura militar.
Espero que divulguem mais relatos sobre sua vida, por que daqui tentarei ressucitar seu idealismo e imagem - pois foi o que restou a minha família.
Mesmo que de forma insignificante, comparando-me aos seus feitos, espero levar adiante essa História
Lutamos agora (a família), no intuito, de mudar o que foi divulgado pelo Governo Sanguinário, ou seja, retirar da figura de Rui as ESTÓRIAS criadas (de terrorista, suicida)e proclamarmos a verdadeira realidade contando sua HISTÓRIA.